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Informante britânico expõe cumplicidade do governo com genocídio em Gaza

11 de fevereiro de 2025, às 12h21

Protesto pró-Palestina em Londres, Reino Unido, em 18 de maio de 2024 [Mark Kerrison/In Pictures via Getty Images]

Mark Smith, ex-diplomata do Ministério de Relações Exteriores do Reino Unido, em um contundente exposé para o jornal The Guardian, apontou para a cumplicidade britânica no genocídio israelense em Gaza, ao notar que o sistema de controles do Estado para a exportação de armas está fundamentalmente falido e permite crimes de guerra.

Smith foi assessor-chefe na política de comercialização de armas, mas pediu demissão em agosto de 2024. Seu papel envolvia reunir informações sobre a conduta armada de governos estrangeiros, especialmente no que se refere a baixas civis e ao respeito à lei internacionais.

Seu relato detalha como ministros de governo buscaram manipular o quadro legal para proteger nações aliadas. Para Smith, a conduta “trespõe o limite da cumplicidade com crimes de guerra” e incita questões urgentes sobre a resposta britânica às ameaças de limpeza étnica em Gaza do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Smith descreveu uma inoperância sistêmica que possibilita a Londres perpetuar crimes de guerra e lesa-humanidade. Smith reportou ter testemunhado oficiais de alto cargo, sob intensa pressão ministerial, distorcerem análises legais e divulgarem, em seu lugar, relatórios sem base para minimizar as evidências de baixas civis.

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No que diz respeito à venda de armas à Arábia Saudita, para uso no Iêmen, observou o ex-diplomata, oficiais sabiam das violações, mas buscavam maneiras de “deixar [a lei] a seu lado”, para evitar a suspensão das exportações da indústria militar.

Dossiês precisos, prosseguiu Smith, eram devolvidos pelo alto escalão com instruções diretas para “reequilibrar” as descobertas, ao enfatizar “esforços diplomáticas” em vez de fatos, incluindo violações contra a população civil.

De acordo com o relato, oficiais adotavam orientações verbais para evitar registros por escrito, que poderiam ser submetidos à lei de transparência.

Para Smith, no entanto, a situação sobre a venda de armas a Israel — em meio à guerra genocida contra a Faixa de Gaza, com 48 mil mortos e dois milhões de desabrigados — foi ainda pior. Neste contexto, seus questionamentos técnicos e legais foram recebidos com particular hostilidade.

Oficiais o advertiram para não registrar receios por escrito e o ordenaram que apagasse qualquer correspondência. O sistema, insistiu o delator, foi projetado para proteger a si mesmo, em vez de promover a responsabilização das partes e evitar abusos.

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Sobre Gaza, Smith foi assertivo: “Não é autodefesa — é punição coletiva. É genocídio”.

Neste sentido, o ex-diplomata instou colegas a resistir à máquina de impunidade posta e pressionar ministros e congressistas para que parem de “comercializar vidas humanas por mera conveniência política”.