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Colonos com bandeiras israelenses em Tel Aviv, em 20 de fevereiro de 2025 [Mostafa Alkharouf/Anadolu via Getty Images]

Israel sofreu a maior queda de sua história no Índice Global de Soft Power de 2025, ao chegar a 33º lugar entre os países avaliados, conforme o relatório anual, emitido nesta quinta-feira (20) pela organização Brand Finance.

As informações são da agência de notícias Anadolu.

A queda marca um revés considerável para o Estado da ocupação israelense, com um declínio recorde de 42 posições no critério Reputação, estacionado, por ora, em 121º lugar.

O Índice Global de Soft Power reúne 170 mil entrevistados em mais de cem países, ao avaliar os 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas (ONU) em termos de influência, reputação e capacidade de atrair boa-vontade global.

Soft power se refere à capacidade dos Estados de influenciarem uns aos outros, por meio de persuasão invés de coerção ou força. Costuma se basear em apelo cultural, expressão de valores políticos e relações diplomáticas.

Os resultados do índice apontam para uma degradação considerável em termos de relações públicas para países envolvidos em conflitos armados, com destaque, não obstante, ao Estado de Israel.

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Israel manteve ataques indiscriminados a Gaza entre outubro de 2023 e 19 de janeiro de 2025, quando entrou em vigor um acordo de cessar-fogo e troca de prisioneiros. A campanha israelense deixou ao menos 48 mil mortos e dois milhões de desabrigados entre a população palestina, sobretudo civis.

Desde então, diversos países romperam ou reduziram seu relacionamento com Israel, como o caso de Colômbia e Turquia.

O Estado israelense passou ainda a réu no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), em Haia — pela primeira vez na história —, sob denúncia por genocídio da África do Sul deferida em janeiro de 2024.

Em novembro, o Tribunal Penal Internacional (TPI) — corte-irmã, também em Haia —emitiu mandados de prisão contra o premiê israelense Benjamin Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por crimes de guerra e lesa-humanidade cometidos em Gaza.

O impacto geopolítico de conflitos se nota em outros casos. A Ucrânia, por exemplo, caiu a 46º lugar em termos de soft power, em meio a uma crise sem precedentes de apoio e enfoque global desde a deflagração da invasão russa, em fevereiro de 2022.

A Rússia, porém, permaneceu a 16º lugar, com apoio de seus aliados orientais, apesar de rejeição crescente nos países do Ocidente.

Notavelmente, no critério Reputação, a Ucrânia também desabou em 19 posições, ao terminar o ano em 95º lugar, abaixo de Moscou, em 75º.

O índice de 2025 demonstrou tendências de desigualdade de influência geopolítica, com as principais potências consolidando posições enquanto outras ficam para trás.

Estados Unidos seguem em primeiro, com nota de 79.5 de cem, apesar de também vivenciar uma crise de estabilidade e governança política.

A China, por sua vez, subiu à vice-liderança, ao ocupar o tradicional lugar da Grã-Bretanha. O Brasil, embora no topo de percepção sobre sua população, continua estagnado em 31º lugar.

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Segundo David Haigh, presidente da Brand Finance, “no fim de seu primeiro mandato, a política beligerante de Donald Trump arrefeceu a influência [soft power] dos Estados Unidos, ao lhes custar o topo do índice em 2021. Agora, Trump retorna a seu segundo mandato, à medida que o país sofre queda na percepção de sua estabilidade política e capacidade de governança pelo terceiro ano consecutivo”.

“Ao desmontar mecanismos convencionais de soft power, como ajuda estrangeira e livre comércio, a incerteza e a imprevisibilidade assombram os Estados Unidos, bem como sua reputação global sob o governo Trump, com implicações em potencial nas classificações futuras”, acrescentou Haigh.

A ascensão da China, em contrapartida, reflete investimentos estratégicos por meio de iniciativas multibilionárias como a Nova Rota da Seda e programas de sustentabilidade, desenvolvimento e construção de relações internacionais.

No espectro oposto, a maior ascensão está em El Salvador, que subiu 35 posições aos olhos de investidores e tecnocratas que apoiam as políticas de marca e criptomoedas

do presidente Nayib Bukele. O país, no entanto, está ainda na 82ª posição.

O Oriente Médio, embora ascendente, registrou uma desaceleração nos rankings, com Arábia Saudita e Catar perdendo terreno, em 20º e 22º lugar respectivamente.

A única exceção é os Emirados Árabes Unidos, ainda em 10º lugar, apesar de denúncias de violações de direitos humanos e investimentos em guerras na África, o que sugere o viés das partes votantes.

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