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Cisjordânia teme genocídio como em Gaza após destruição em Jenin

25 de fevereiro de 2025, às 12h44

Destruição deixada por tratores israelenses em redes de esgoto e infraestrutura na cidade de Qabatiya, ao sul da cidade de Jenin, na Cisjordânia ocupada, em 23 de fevereiro de 2025 [Nasser Ishtayeh/SOPA Images/LightRocket via Getty Images]

Tratores do exército israelense demoliram grandes áreas do agora praticamente vazio campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia ocupada, e parecem estar escavando passagens por suas antes lotadas vielas, ecoando táticas empregadas em Gaza para que as tropas permanecessem no território, reportou a agência Reuters.

Mais de 40 mil palestinos foram expulsos de suas residências em Jenin e na cidade próxima de Tulkarm, no norte da Cisjordânia ocupada, desde que Israel lançou sua campanha militar apenas um dia depois de se implementar um acordo de cessar-fogo em Gaza, vitimada por 15 meses de guerra genocida.

“Jenin é um eco do que ocorreu em Jabalia”, comentou Basheer Matahen, porta-voz da prefeitura de Jenin, em referência ao campo de refugiados, no norte de Gaza, destruído por completo pelas ações de Israel. “Jabalia se tornou inabitável”.

Conforme Matahen, ao menos 12 tratores israelenses seguem operando na demolição de infraestrutura civil no campo de Jenin, antes povoado por descendentes diretos dos refugiados da Nakba, ou “catástrofe”, de 1948, quando 800 mil palestinos foram expulsos de suas casas e terras e 500 aldeias e cidades foram destruídas para dar lugar à criação do Estado de Israel.

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Matahen observou que equipes de engenharia do exército colonial parecem conduzir preparativos para sua estadia de longo prazo, ao instalarem geradores e caixas-d’água em um perímetro à parte de quase um acre de área.

No domingo (23), o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ordenou suas tropas a se prepararem para uma “permanência prolongada”, ao reiterar que os campos na Cisjordânia ocupada haviam sido “limpos pelo próximo ano” e que os residentes palestinos não poderiam retornar a suas próprias casas.

A campanha — em curso há um mês — no norte da Cisjordânia é uma das maiores desde a Segunda Intifada, há mais de 20 anos, ao abranger dezenas de brigadas do exército israelense, com apoio de drones, helicópteros e, pela primeira vez em décadas, tanques de batalha.

“Há uma evacuação ampla e em curso da população palestina, sobretudo nos dois campos de refugiados — Nur Shams, perto de Tulkarm, e Jenin”, destacou Michael Milshtein, ex-agente de inteligência que hoje comanda o Fórum de Estudos Palestinos, no Centro Moshe Dayan para Estudos da África e Oriente Médio.

“Não sei qual é a grande estratégia aqui, mas não resta dúvida de que nunca vimos algo nessa escala”, acrescentou.

Israel insiste que sua operação busca desraigar os grupos de resistência palestina nos campos. Entretanto, conforme as semanas se arrastam, palestinos alertam que o real propósito repousa em um deslocamento permanente de larga escalada da população nativa, ao destruir suas casas e infraestrutura e tornar a região inabitável.

“Israel quer apagar os campos e a memória dos campos, moral e financeiramente; quer apagar o nome dos refugiados da memória das pessoas”, comentou Hassan al-Katib, de 85 anos, que morava no campo de refugiados de Jenin com seus 20 filhos e netos antes de ser deslocado à força pela agressão israelense.

O governo israelense, neste mesmo contexto, criminalizou ainda a Agência das Nações Unidas para a Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), ao banir suas equipes de sua sede em Jerusalém Oriental e exigir a suspensão de todas as suas atividades no campo de Jenin.

A medida, contra o órgão das Nações Unidas, estabelecido em 1949, aponta tentativas declaradas da liderança israelense de acabar com a pauta dos refugiados palestinos da Nakba e seus descendentes, que reivindicam seu direito de retorno — consagrado pela lei internacional — desde então.

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“Não sabemos qual o verdadeiro objetivo do Estado de Israel”, afirmou Juliette Touma, porta-voz da UNRWA. “O que sabemos é que há um enorme deslocamento à força dos campos de refugiados”.

Touma, no entanto, ressaltou que o status dos refugiados permanece o mesmo, independente de sua localização física.

Os campos — símbolos prevalentes do status em aberto dos 5.9 milhões de refugiados palestinos que almejam regressar a suas terras ancestrais — são alvos há décadas de Israel, na tentativa de exterminar suas demandas como prerrogativa a uma eventual resolução eventualmente justa para o conflito.

Muitos palestinos notam ainda que a campanha parece avalizada pelos apelos recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para transferir compulsoriamente os palestinos de Gaza a Egito, Jordânia e outros países regionais, para abrir caminho a um projeto de desenvolvimento imobiliário de uma “Riviera do Oriente Médio”.

Ainda em visita à Casa Branca, ao lado de seu correligionário supremacista, recém-empossado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, apoiou a proposta com notável entusiasmo.

Nabil Abu Rudeineh, porta-voz da Autoridade Palestina (AP), admitiu que a campanha na Cisjordânia parece repetir táticas aplicadas em Gaza, onde os batalhões israelenses deslocaram, de forma dolosa e sistemática, centenas de milhares de famílias por meio da destruição ampla e indiscriminada de suas propriedades civis.

“Exigimos da gestão americana que obrigue o Estado ocupante a cessar de imediato sua agressão contra as cidades da Cisjordânia”, reiterou Abu Rudeineh.

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Forças colaboracionistas da Autoridade, que recebem recursos de Tel Aviv e Washington, contudo, continuam a reprimir eventuais protestos palestinos.

Colonos supremacistas — com raízes profundas no governo, exército e parlamento de Israel — reivindicam há anos a anexação ilegal da Cisjordânia, região produtiva de 100 km de extensão destinada a um futuro Estado independente da Palestina, junto de Gaza e Jerusalém Oriental — destruída e ocupada, respectivamente.

O único contrapeso no momento, conforme analistas, é que tais medidas devem afogar definitivamente esperanças de Tel Aviv de normalizar laços econômicos e de segurança com Estados árabes, sobretudo Arábia Saudita.

A nova gestão americana, não obstante, tem incitado os colonos, incluindo o próprio presidente Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio.

A Cisjordânia — assim como Jerusalém Oriental — permanece militar e ilegalmente ocupada por Israel desde 1967, como reconhece o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), sediado em Haia, conforme recente decisão histórica, de julho de 2024.

Em setembro, a determinação da corte evoluiu a resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, por maioria absoluta dos votos, ao ordenar evacuação de colonos e soldados e reparações aos palestinos nativos, com prazo de um ano para ser implementada.

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