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Brasil sob ameaças de Trump: a solução está na economia da complementaridade no BRICS

25 de março de 2025, às 15h19

Presidente Lula em encontro de líderes do Brics, na África do Sul, em 2023 [ Ricardo Stuckert/Presidência da República]

Partimos da premissa de que a atenção ao Brasil é um requisito para a análise do Sistema Internacional e da Economia Mundial. No ranking internacional de PIB (PIB per capita), o país ocupa a 10ª posição segundo dados de 2024. Se a base for a PPP – (buying power parity), paridade do poder de compra segundo a base do PIB e população nacionais, o país está em 7º lugar na hierarquia mundial mais assertiva. No Atlas da Complexidade Econômica, a potência sul-americana ocupa apenas o 65º lugar no mundo .

Diante disso, qualquer perda em termos de troca é prejudicial ao país, mas o problema mais grave é não estar no centro das cadeias internacionais de valor, principalmente em seu desenho estratégico de terminação, onde se encontra a formação de preços de maior valor agregado.

Neste texto veremos como a simples ameaça de Donald Trump já antecipa movimentações urgentes do Brasil, que visam fortalecer o desenvolvimento científico e tecnológico, bem como atender parcerias fundamentais tanto no bloco BRICS quanto em outros países, dentro do eixo Sul-Sul das relações.

Segundo o G1 (site de notícias da Globo Partners , maior conglomerado de mídia do Brasil), o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que tarifas recíprocas e setoriais entrarão em vigor em 2 de abril. Anteriormente, quando anunciou as tarifas pela primeira vez, o governo americano citou o etanol brasileiro como exemplo.

“A tarifa dos EUA sobre o etanol é de apenas 2,5%. No entanto, o Brasil cobra uma tarifa de 18% sobre as exportações de etanol dos EUA. Como resultado, em 2024, os EUA importaram mais de US$ 200 milhões em etanol do Brasil, enquanto exportaram apenas US$ 52 milhões em etanol para o Brasil.”

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Trump também disse que os países do BRICS — um grupo de coordenação econômica formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — podem enfrentar uma tarifa de pelo menos 100% se quiserem “brincar com o dólar”.

Afinal, quão grandes são os BRICS?

A dimensão econômica do bloco impressiona. Incluindo os seis novos membros do grupo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã), a participação dos BRICS no PIB mundial (a preços correntes) aumentou 39% em 2023. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou, em 2024, crescimento econômico em todos os países do bloco, variando de 1,1% a 6,1%.

O mesmo se aplica à proporção demográfica. Ela tem um escopo amplo, pois agora inclui grande parte do Oriente Médio e mais países africanos. Em termos territoriais, o BRICS representa atualmente aproximadamente 36% do total e 48,5% da população mundial, indicando uma tendência de crescimento para a década de 2030.

Em termos de comércio internacional, os países do bloco respondem por 24% do total do sistema de comércio global. Falando especificamente do Brasil dentro do grupo, o total foi de USD 210 bilhões, implicando 35% do total em 2024. O BRICS foi o destino de 121 bilhões de dólares de exportações nacionais. 36% do total exportado pelo país foi para o BRICS, assim como 34% do total importado pelo Brasil (USD 88 bilhões).

A capacidade energética do BRICS contém 72% das reservas mundiais de terras raras; 43,6% da produção mundial de petróleo; 36% da produção mundial de gás natural e 78,2% da produção global de carvão.

O desenvolvimento científico e tecnológico como tarefa urgente

Citamos dois exemplos, entre muitos, para demonstrar como, apesar do domínio e da hegemonia dos parasitas financeiros, enfrentamos um esforço constante em direção ao desenvolvimento.

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Uma iniciativa entre Brasil e Rússia por meio do BRICS. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) contará com um Centro Brasil- BRICS de Inovação em Neoindustrialização . O foco do desenvolvimento está nas áreas de saúde, agricultura e economia azul, relacionadas ao uso sustentável dos recursos oceânicos. Esse é o objetivo do Centro Brasil-BRICS de Inovação em Neoindustrialização, que começará a operar em 2026, no Parque Tecnológico da UFRJ, zona norte do Rio.

A criação da unidade foi anunciada pelo reitor da UFRJ, Roberto Medronho, e pelo diretor executivo do Parque, Romildo Toledo, durante as atividades do Fórum de Reitores do BRICS, que reuniu representantes de universidades dos países-membros do bloco: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul na Lomonosov Moscow State University (MSU). Também estiveram presentes representantes de países que aderiram recentemente ao BRICS, como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Egito. O fórum foi presidido pelo reitor da MSU.

Essa é uma iniciativa que pode – deve – ganhar escala, a exemplo das sedes do Instituto Confúcio em diversas universidades brasileiras, levando adiante uma política de portas abertas do governo chinês.

Outra iniciativa recente visa ampliar a política de difusão de pesquisa e desenvolvimento , segundo a Agência de Notícias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ( BNDES ). Com R$ 3 bilhões, o BNDES e a Finep lançaram um edital para atrair centros de P&D para o Brasil. A chamada pública inclui apoio à implantação de novos centros e à expansão de centros de pesquisa e desenvolvimento já existentes no país. As propostas devem estar relacionadas às seis missões da Nova Indústria Brasil

Além de empresas brasileiras, a chamada pública está aberta para receber propostas de empresas estrangeiras que queiram trazer competências tecnológicas para o Brasil. Esta seria uma excelente oportunidade para entrar na chamada pública por meio de consórcios de países membros do BRICS por meio de seus respectivos centros de pesquisa.

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A chamada pública tem orçamento de R$ 3 bilhões de reais (US$ 530 milhões) para apoiar os centros com instrumentos de crédito, participação acionária, recursos não reembolsáveis para projetos cooperativos entre empresas e instituições tecnológicas e subvenções econômicas, operadas pelo BNDES ou FINEP. É importante destacar que esses centros estarão espalhados por todo o país, nas cinco regiões – com orçamentos diferentes – a saber, Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte.

Linhas Conclusivas

Só é possível observar os movimentos de um país se considerarmos o nível de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento e as metas de produção industrial. Em termos de discurso, a diplomacia brasileira sob o governo Lula III é mais verbosa, tentando equilibrar o acordo do Mercosul com a União Europeia e o aspecto não alinhado representado pela dimensão econômica dos BRICS.

Por um lado, o Itamaraty deve continuar cauteloso em medidas tarifárias recíprocas após as agressões de Trump em seu segundo mandato. Por outro lado, especialmente considerando que o Brasil detém a presidência temporária do BRICS, veremos uma aceleração de acordos, investimentos comuns e possibilidades de criação de centros de pesquisa de alto desempenho.

Os movimentos do Brasil teriam sido mais fáceis se a Argentina tivesse aproveitado melhor sua entrada no BRICS. Com a mudança de governo, o novo presidente, alinhado ao trumpismo e subordinado aos EUA, recusou-se a permitir que ele permanecesse. Ainda assim, e apesar de todas as limitações estruturais, o país caminha para uma economia integrada baseada em uma nova indústria, alinhada à complementaridade dos BRICS.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.