Mais um ano se passou e os palestinos seguem resistindo ao projeto colonial e genocida do regime racista de Israel. Apesar de todas as imagens e os relatórios humanitários comprovando o terror do genocídio iniciado em 2023, o mundo parece ter perdido o interesse no extermínio em massa de palestinos em Gaza. Quer dizer, o “mundo” que conta como mundo mesmo, o primeiro mundo. Ocidente, Otan, Norte global, o apelido de sua preferência.
Lá onde se conjura o pacto dos hipócritas, um acordo é forjado. Não um pacto de silêncio: pelo contrário, eles não param de falar – talvez na tentativa de abafar o barulho das bombas – sobre a nobreza das próprias intenções, princípios e ações. Seus governantes sorriem; seus jornais, em uníssono, exultam. Por lá, crê-se, tudo está bem. E o resto do mundo, como anda? Pouco importa. Aliás, quem se desinforma pela mídia burguesa brasileira pode acabar acreditando que é de si que se fala quando eles falam do mundo civilizado, ocidental, que dormirá seguro graças à cruzada contra o “Terror”. Não é.
Somos parte de outro mundo. Outra história, outra geografia. Outro tempo.
Por isso, vim te informar de uma data importante do calendário de nosso mundo (ex?)colonizado. Nesta sexta-feira, 28 de março, é comemorado o dia de Al-Quds. A efeméride, dedicada à solidariedade para com a causa palestina, ocorre sempre na última sexta-feira do mês sagrado do Islã, o Ramadã. Al-Quds, mais conhecida no Brasil pelo nome de Jerusalém, é a capital da Palestina ocupada. A data relembra o mundo da necessidade de libertar Al-Quds das garras do Apartheid israelense.
Colonialismo, esse desconhecido
Ainda vivemos no tempo das colônias. O mundo do colonizador existe na expansão, na pilhagem contra o mundo dos colonizados. O mundo espanhol que engoliu o mundo asteca; o mundo inglês que esquartejou o mundo africano. Ambos os mundos só podem existir por meio da violência: é a violência colonial que cria os dois em sua partição. Dois territórios, duas humanidades e sua hierarquia. Ao colonizado, resta morrer em silêncio. Ou resistir e se tornar um “bárbaro”, um “selvagem”, um “terrorista” aos olhos do colono. O apelido de sua preferência.
Na linha de frente do combate entre o mundo do colonizador e o mundo do colonizado estão os povos indígenas – entre eles, os indígenas palestinos. Poucos tem coragem de tomar o lado deles; fica ruim no currículo, dificulta o visto de turista. A cada massacre fica mais evidente que os princípios e valores da modernidade liberal – igualdade, liberdade, fraternidade – não passam de palavras vazias na boca da besta imperial.
Aprendamos a lição que nos legou o jacobinismo negro: quando o opressor fala em Humanidade, ele não está nos incluindo. Para o colonizador, “Humano” é tudo aquilo que lhe é espelho. O colonizado é mercadoria, besta de carga, parte da paisagem. Para o colonizador, a humanidade do colonizado é estritamente biológica. Não basta ser Hhomo sapiens; nosso plano não cobre isso aí de ser gente. Gente igual, livre, fraterna. O máximo de humanidade que concedem ao seleto grupo de “bons selvagens” é a coparticipação: em vez de ser morto pela Coroa, você morre pela Coroa. Da Bastilha ao Haiti, se tornar gente não é coisa concedida. É coisa tomada.
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Para os “civilizados”, palestino é qualquer coisa menos gente. Enquanto dezenas de milhares de crianças palestinas são assassinadas, sob os aplausos do mundo civilizado, pelo exército da ocupação racista israelense, parte de nossa vanguarda intelectual “progressista” segue em silêncio. A estes não se pede um só disparo, mas empatia; não se pede uma gota de sangue, mas solidariedade. Os palestinos, embora lutem por você e por mim, não pedem que sacrifiquemos nossas vidas; pedem apenas apoio, por quaisquer meios de que disponhamos. Para muitos de nós, o preço de defender a humanidade dos palestinos se limita à possibilidade de nunca mais visitar a Disney. Para alguns “humanistas”, um preço demasiado alto.
Os princípios do Direito Internacional, segundo os quais as potências coloniais dizem operar, de pouco têm servido para além da garantia do emprego de um punhado de burocratas e para a distribuição autocongratulatória de prêmios fictos. Numa espécie de confraternização de fim de ano da firma imperial, os cúmplices distribuem entre si elogios e troféus de bom colono. Quem vê até pensa; em tais eventos, normalmente promovidos nos salões das universidades e filantropias dos colonizadores, certo complexo de sinhá-moça toma de assalto o coração dos convivas. Entre lágrimas e soluços, juram por tudo que é mais ser sagrado ser com dor no coração que cometem e lucram com seus genocídios.
Enquanto isso, são os palestinos que defendem a materialidade de nossos direitos humanos.
A libertação de Al-Quds é a libertação da Humanidade
Já basta das elucubrações palacianas do Norte Global, de seu juridiquês anódino, de suas instituições inertes. Culpados, eles mesmos, por horrores indescritíveis durante séculos de colonialismo, silenciam frente a crimes similares cometidos por “Israel”. Pior; cobrem os assassinos de elogios. Espelho, espelho meu: há colonialismo mais humano que o meu?
É tempo de ouvirmos os oprimidos. De nos identificarmos com eles. Não por pureza de espírito, mas pela necessidade inadiável de emancipar a Humanidade. Não interessa se você não é palestino; não importa sequer se você sabe apontar a localização da Palestina num mapa: a batalha pela libertação de Al-Quds diz respeito a cada um de nós. Ela faz parte de uma prolongada guerra entre dois mundos. Antes dela, vieram outras: a batalha de Porto Príncipe, vencida por L’Ouverture; a batalha de Palmares, de Canudos, da confederação dos Cariris; a batalha de Argel, de Saigon, de Cuito Cuanavale.
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Entre derrotas e vitórias, uma constante: o antiimperialismo, que sintetiza as demandas populares por independência, autodeterminação e o combate à superexploração própria dos regimes coloniais. Quando consideramos que, cada um em seu país, a maior parte dos diversos movimentos de libertação nacional buscaram o mesmo objetivo geral, compreendemos o porquê da continuidade dos conflitos: a guerra só termina quando seu objetivo político é atingido. Para um lado, esta é uma guerra de extermínio, pilhagem; para o outro, uma luta pelo direito de existir.
Não vou te perguntar de que lado você está. Isso foi definido em 1492 por Cristóvão Colombo. Pergunto o seguinte: você vai resistir ou morrer em silêncio?
28 de março, dia de Al-Quds.
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